quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O José chegou a casa, ainda o jantar não estava feito.

- O que é que trazes aí? – perguntou-lhe Marta, de avental posto, um cheiro a legumes salteados a sair da cozinha, agora que a mulher de lá saíra para receber o marido.

Era um plasma. Um grande, grande plasma. E dois são já muito descritivos, por isso é porque era mesmo grande.

Mendonça, o sogro, que fumava na sala o seu cachimbo de marfim, sempre soubera que o genro era cleptomaníaco. “Roubo-o.” – pensou. Sabia-o desde que deixara Maria Filipa e Antunes, os pais da criança, entrarem lá em casa com o miúdo. José era ainda uma criança e o Mendonça e a mulher já não viam o casal de amigos há muito, sobretudo porque desde que o pequeno nascera, os pais partiram para o Alentejo e só regressaram naquele dia a Lisboa para uma visita rápida, para não parecer mal irem à capital e não dizerem nada.

José deixara-se estar na sala, enquanto os pais seguiram o casal à adega, onde foram buscar um “vinhozito especial para a ocasião”. Quando os quatro adultos chegaram, Paula notou logo uma falta em cima do móvel onde guardava nas gavetas o enxoval.

- Ai marido, que falta aqui uma prata! – Mendonça questionou-se. Nunca na vida reparara sequer que havia pratas em cima daquele móvel velho que a mulher insistira em levar para a casa, quando se casaram. – Ai que juro que ela aqui estava ainda agora! A Amélia não ma tirava, isso sei eu!

E sabia também José que Amélia, a empregada, não era ladra, e a mulher muito menos mentirosa. Se a esposa o dizia, ai Jesus, então era porque faltava o raios a partam de uma prata!

- Uma prata, Paulinha, filha? Então mas quem a tiraria?

Maria Filipa logo se estendeu para o filho já em calores, depois de ver a amiga aflita pela falha na decoração:

- Zézinho, querido, você não tirou nada do móvelzinho da tia Paulinha, pois não?

- Eu não, mamã.

- Zézinho, se está a brincar dê a prata à titi, que ela sofre de coração e está aflita. – repetiu a mãe para a criança.

E depois de mais uns minutos a questioná-lo, o assunto encerrou-se e Paula consolou-se com a ideia de a sogra ainda ter uma pratinha parecida lá para a casa dos tempos em que o marido era solteiro.

Mendonça puxou o bracinho à criança, uma ou duas horas depois, quando o viu passear pela casa, pequenito, baixinho, enfezado, com os sapatinhos de pele de carneiro a roçar pelo chão de pedra. Abriu-lhe muito os olhos, e disse com cara de caso:

- Zézinho, ouve lá, meu menino, tu não brinques comigo que já vi que tens aí um alto no bolso. Se não me dás a prata, digo ao teu pai e olha que ainda levas uma sova em casa. Se não a queres levar, é bom que me dês a prata agora. Olha que o teu pai é mais severo que eu!

José estremeceu, correu para a sala, para se agarrar à saia da mamã, a cara tapada no meio do tecido.

- Ai, Zézinho, querido, que se passa? O que lhe desagrada, filho? – perguntou-lhe Maria Filipa.

Mendonça logo apareceu à entrada:

- Paulinha, querida, não te aflijas mais, que a pratinha estava em cima da mesa da sala de jantar. A Amélia esteve a limpar com certeza e esqueceu-se dela por lá.

Paula sorriu de alívio, Maria Filipa logo percebeu que o caso tinha sido muito rápido a resolver, e o Antunes, pai de José, abriu os olhos à criança, logo adivinhando que o filho fizera disparate e que o amigo só não o quisera incriminar.

Outros anos mais tarde, já Marta nascera e brincava com o amigo, na quinta dos pais de Zézinho, entre montes alentejanos, e apareceu sem o ganchinho, os cabelinhos louros despenteados e caídos para os olhinhos azuis. Paula inspirou fundo, antes de repreender a pequena, que fora educada com os modos católicos da época, e avisada tantas vezes para não se dar muito com Zézinho, menino de má influência! 

Mendonça logo pensou que o miúdo tivera mão na triste figura da filha e Maria Filipa e Antunes apressaram-se em ralhetes dirigidos ao filho, que deixara a menina perder o ganchinho e aparecer assim, desamparada, que tanto mal lhe fazia à vista os cabelinhos em frente dos olhos!

E agora, vinte e dois anos depois, tinha Marta 27, decidira casar-se com o triste advogado, ainda enfezadinho, de grata enfiada ao pescoço, ladrão sacana que ainda não perdera o vício de roubar o que via.

- Ainda não sei como se arranjou para meter o televisor no bolso, ainda não sei! Mas hei-de descobrir, Paulinha, não me chame eu Manuel Mendonça! – encheu-se o velho de queixas à mulher, arrependido por ter levado a filha ao altar dias antes do episódio a que assistira, com o genro a entrar em casa, vindo lá daquela firma dos pecados de advocacia onde trabalhava, com um plasma para a mulher, a sua querida Martinha, que coitadinha, sempre merecera melhor. – Ouviste, Paulinha? Escreve o que te digo, que aquele sacana ainda vai ser apanhado! Ainda o hei-de apanhar, mulher! 

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