O José chegou a casa, ainda o
jantar não estava feito.
- O que é que trazes aí? –
perguntou-lhe Marta, de avental posto, um cheiro a legumes salteados a sair da
cozinha, agora que a mulher de lá saíra para receber o marido.
Era um plasma. Um grande, grande plasma.
E dois são já muito descritivos, por isso é porque era mesmo grande.
Mendonça, o sogro, que fumava na
sala o seu cachimbo de marfim, sempre soubera que o genro era cleptomaníaco. “Roubo-o.”
– pensou. Sabia-o desde que deixara Maria Filipa e Antunes, os pais da criança,
entrarem lá em casa com o miúdo. José era ainda uma criança e o Mendonça e a
mulher já não viam o casal de amigos há muito, sobretudo porque desde que o
pequeno nascera, os pais partiram para o Alentejo e só regressaram naquele dia
a Lisboa para uma visita rápida, para não parecer mal irem à capital e não
dizerem nada.
José deixara-se estar na sala,
enquanto os pais seguiram o casal à adega, onde foram buscar um “vinhozito
especial para a ocasião”. Quando os quatro adultos chegaram, Paula notou logo
uma falta em cima do móvel onde guardava nas gavetas o enxoval.
- Ai marido, que falta aqui uma prata!
– Mendonça questionou-se. Nunca na vida reparara sequer que havia pratas em
cima daquele móvel velho que a mulher insistira em levar para a casa, quando se
casaram. – Ai que juro que ela aqui estava ainda agora! A Amélia não ma tirava,
isso sei eu!
E sabia também José que Amélia, a
empregada, não era ladra, e a mulher muito menos mentirosa. Se a esposa o
dizia, ai Jesus, então era porque faltava o raios a partam de uma prata!
- Uma prata, Paulinha, filha? Então
mas quem a tiraria?
Maria Filipa logo se estendeu para
o filho já em calores, depois de ver a amiga aflita pela falha na decoração:
- Zézinho, querido, você não tirou
nada do móvelzinho da tia Paulinha, pois não?
- Eu não, mamã.
- Zézinho, se está a brincar dê a
prata à titi, que ela sofre de coração e está aflita. – repetiu a mãe para a
criança.
E depois de mais uns minutos a questioná-lo,
o assunto encerrou-se e Paula consolou-se com a ideia de a sogra ainda ter uma
pratinha parecida lá para a casa dos tempos em que o marido era solteiro.
Mendonça puxou o bracinho à
criança, uma ou duas horas depois, quando o viu passear pela casa, pequenito,
baixinho, enfezado, com os sapatinhos de pele de carneiro a roçar pelo chão de
pedra. Abriu-lhe muito os olhos, e disse com cara de caso:
- Zézinho, ouve lá, meu menino, tu
não brinques comigo que já vi que tens aí um alto no bolso. Se não me dás a
prata, digo ao teu pai e olha que ainda levas uma sova em casa. Se não a queres
levar, é bom que me dês a prata agora. Olha que o teu pai é mais severo que eu!
José estremeceu, correu para a
sala, para se agarrar à saia da mamã, a cara tapada no meio do tecido.
- Ai, Zézinho, querido, que se
passa? O que lhe desagrada, filho? – perguntou-lhe Maria Filipa.
Mendonça logo apareceu à entrada:
- Paulinha, querida, não te aflijas
mais, que a pratinha estava em cima da mesa da sala de jantar. A Amélia esteve a
limpar com certeza e esqueceu-se dela por lá.
Paula sorriu de alívio, Maria
Filipa logo percebeu que o caso tinha sido muito rápido a resolver, e o Antunes,
pai de José, abriu os olhos à criança, logo adivinhando que o filho fizera
disparate e que o amigo só não o quisera incriminar.
Outros anos mais tarde, já Marta
nascera e brincava com o amigo, na quinta dos pais de Zézinho, entre montes
alentejanos, e apareceu sem o ganchinho, os cabelinhos louros despenteados e
caídos para os olhinhos azuis. Paula inspirou fundo, antes de repreender a
pequena, que fora educada com os modos católicos da época, e avisada tantas vezes
para não se dar muito com Zézinho, menino de má influência!
Mendonça logo
pensou que o miúdo tivera mão na triste figura da filha e Maria Filipa e
Antunes apressaram-se em ralhetes dirigidos ao filho, que deixara a menina
perder o ganchinho e aparecer assim, desamparada, que tanto mal lhe fazia à
vista os cabelinhos em frente dos olhos!
E agora, vinte e dois anos depois,
tinha Marta 27, decidira casar-se com o triste advogado, ainda enfezadinho, de
grata enfiada ao pescoço, ladrão sacana que ainda não perdera o vício de roubar
o que via.
- Ainda não sei como se arranjou
para meter o televisor no bolso, ainda não sei! Mas hei-de descobrir, Paulinha,
não me chame eu Manuel Mendonça! – encheu-se o velho de queixas à mulher,
arrependido por ter levado a filha ao altar dias antes do episódio a que
assistira, com o genro a entrar em casa, vindo lá daquela firma dos pecados de
advocacia onde trabalhava, com um plasma para a mulher, a sua querida Martinha,
que coitadinha, sempre merecera melhor. – Ouviste, Paulinha? Escreve o que te
digo, que aquele sacana ainda vai ser apanhado! Ainda o hei-de apanhar, mulher!